O Festival NICHO Novembro 2023 e a celebração do audiovisual negro no Brasil
Em novembro de 2023, São Paulo foi palco de uma edição especial: a quinta do Festival NICHO Novembro, que reafirmou sua importância como espaço de celebração, formação e articulação de profissionais negros e negras do audiovisual brasileiro.
Durante dez dias, entre 9 e 18 de novembro, o festival espalhou sua programação por espaços como o Centro Cultural São Paulo e o IMS Paulista, com atividades 100% gratuitas. Filmes, debates, encontros com o mercado e shows deram corpo a uma jornada que não só refletiu os avanços do Instituto NICHO 54, mas também apontou caminhos para o futuro do setor.
Filmes que narram o agora e o antes com olhar negro
Uma mostra que cresceu junto com o festival
Desde sua primeira edição, o NICHO Novembro dedica parte essencial de sua programação à exibição de filmes. Em 2023, a mostra trouxe um número recorde de produções: 28 filmes exibidos ao longo de 15 sessões na Sala Lima Barreto, no CCSP. A curadoria de Heitor Augusto e, neste ano, também da organização norte-americana Firelight Media formou um mosaico potente de histórias, formatos e vivências.
Esses filmes não estavam ali apenas para serem assistidos. Em sete sessões, realizadores e personagens participaram de conversas com o público, transformando cada exibição em um momento de encontro. Foi nesse espaço que surgiram reflexões profundas sobre identidade, território, memória e futuro. Os filmes se tornaram ponto de partida para olhares críticos, sensíveis e, acima de tudo, plurais.
Retratar para resistir
O tema curatorial deste ano girou em torno do “retrato”: seja de indivíduos, comunidades ou paisagens sociais e culturais. As sessões se organizaram em torno de temas como “A terra é nossa”, “Bora dançar”, “Nós por nós” e “Desapagando”, e reuniram desde documentários históricos até experimentações visuais. A Firelight Media, com sua retrospectiva especial, trouxe produções dos EUA que retratam territórios negligenciados e memórias marginalizadas. Uma conexão direta entre narrativas negras globais.
Fórum Cinemateca Negra: pensar cinema é pensar política
Um novo espaço de escuta e construção coletiva
Pela primeira vez, o festival contou com um fórum de discussão. Batizado de Cinemateca Negra, o espaço promoveu três dias de encontros intensos com pesquisadores, representantes do governo, professores universitários e profissionais da cultura.
Essa programação marcou o pré-lançamento da pesquisa homônima, que mapeou mais de 1080 filmes realizados por pessoas negras no Brasil desde 1940. O levantamento será publicado em um livro com artigos críticos e gráficos que analisam, de maneira inédita, o campo audiovisual negro no país. Mais do que números, trata-se de uma reescrita da história do cinema brasileiro a partir de uma nova perspectiva.
Temas que importam e precisam ser debatidos
Os debates passaram por temas urgentes:
- A Lei 10.639 e seu impacto real nas universidades e escolas de cinema.
- Ações afirmativas, fomento, difusão e preservação da memória negra no audiovisual.
- A necessidade de políticas de estado que não dependam de ciclos eleitorais para garantir a continuidade das conquistas.
Mais do que falar sobre representatividade, o fórum mostrou como ela se constrói com dados, articulação e pensamento crítico.
Ambiente de Mercado: onde a potência encontra oportunidade
Conexões reais com a indústria
O Ambiente de Mercado foi um dos pontos altos da edição de 2023. Durante quatro dias no IMS Paulista, o espaço se consolidou como um ambiente racialmente seguro e profissionalmente fértil. Foram cerca de 40 horas de atividades, com mais de 30 convidadas nacionais e internacionais, e a presença de produtoras, plataformas de streaming e fundos internacionais.
O que rolou por lá
- Estudos de Caso, com iniciativas como a Aceleradora Paradiso e a parceria com a Quanta Escola, mostrando resultados concretos de formações voltadas para profissionais negros.
- Painéis Internacionais, como o da Firelight Media, que compartilhou sua experiência com documentaristas não-brancos, e o da Arté France, com dicas preciosas para quem quer distribuir seus projetos pelo mundo.
- Rodada de Negócios, que colocou produtores e players frente a frente para conversar sobre projetos em desenvolvimento, produção e distribuição.
- E o aguardado Pitching Show, onde quatro projetos criados e liderados por mulheres negras foram apresentados com força total incluindo teasers finalizados em 4K, mentorias executivas e suporte estratégico.
Uma vitória com impacto global
O projeto vencedor do Pitching Show foi “Pega Laço”, da diretora Lilian Santiago, que ganhou uma vaga no DOC Toolbox, em Berlim. Um passo gigante na internacionalização de narrativas negras brasileiras.
Um show para celebrar tudo que foi vivido
No encerramento, o festival reuniu o público na Sala Adoniran Barbosa, para uma noite de música com a potência da AFROJAM-SP. O show não foi apenas entretenimento: foi celebração, foi reafirmação da arte preta como espaço de resistência, criatividade e amor.
Por que o NICHO Novembro é urgente e necessário
Mais do que um festival, o NICHO Novembro é um projeto de transformação cultural. Ele existe para abrir caminhos, criar pontes, formar talentos e garantir que profissionais negros e negras tenham espaço para liderar, criar e prosperar no audiovisual. A quinta edição foi a prova de que, com articulação, escuta e parcerias fortes, é possível construir um mercado mais justo e diverso.
E isso não é só sobre cinema. É sobre quem conta as histórias. É sobre quem tem o direito de sonhar. E sobre quem tem o poder de realizar.



