Festival Nicho Novembro 2024

O Festival NICHO Novembro 2024: quando alegria vira política no cinema negro

Entre os dias 13 e 18 de novembro de 2024, São Paulo foi atravessada por um sopro de criação, memória, afeto e força coletiva. A sexta edição do Festival NICHO Novembro transformou a cidade em palco de experiências estéticas, encontros profissionais e debates potentes, tudo girando em torno de um eixo curatorial simples, mas revolucionário: a alegria como motor político.

Sim, alegria. Não como escapismo ou ilusão, mas como força criativa, como energia capaz de gerar pertencimento, construir comunidade e desafiar estruturas. A ideia, proposta por Fernanda Lomba que assinou pela primeira vez a direção artística do festival, foi mais do que um tema: tornou-se uma postura diante da vida e do fazer cultural no Brasil. Num país marcado por crises, retrocessos e apagamentos históricos, apostar na alegria como linguagem curatorial é um gesto radical. E foi exatamente isso que o Festival NICHO Novembro fez: apostou na radicalidade do afeto, da coletividade e da construção de narrativas negras plurais.

Mostra de Filmes: um respiro visual entre memória e invenção

Entre afetos e arquivos: curar é lembrar com cuidado

A Mostra de Filmes deste ano apresentou uma curadoria sensível e política, conduzida por João Rêgo, Milena Manfredini e Lucas Honorato. A seleção de doze obras, cinco longas e sete curtas-metragens, percorreu diferentes gêneros, formatos e temporalidades, apostando em narrativas que trazem a alegria como elemento vital, mas não superficial. Alegria aqui é descoberta de si, é desejo, é comunidade, é luta, é velhice, é infância, é futuro.

A programação também olhou com carinho para o passado, integrando obras históricas que ainda dialogam fortemente com os desafios do presente. Mais do que exibir filmes, a curadoria construiu uma experiência de encontro com a memória cinematográfica negra, trazendo à tona cineastas, intérpretes e linguagens que muitas vezes foram invisibilizadas por um sistema que historicamente marginaliza corpos e ideias negras no audiovisual.

Ubuntu em 24 quadros por segundo

Ao incorporar a filosofia ubuntu — “eu sou porque nós somos” — como lente curatorial, a mostra se propôs a criar um ambiente de comunhão e respeito entre as obras, o público e os realizadores. Cada filme foi seguido de conversas com diretores e diretoras, em sessões com a presença marcante do público. A experiência cinematográfica se estendia para o debate, para o café, para o reencontro. Foi uma celebração do cinema como linguagem viva, que pulsa, provoca e acolhe.

Expandindo fronteiras: o cinema negro brasileiro para o mundo

Pela segunda vez, o NICHO Novembro contou com uma parceria com o Itamaraty, promovendo a exibição internacional de filmes brasileiros dirigidos por pessoas negras. As obras “Meu Amigo Pedro Mixtape” e “Othelo, o Grande” foram projetadas em 11 países, entre eles EUA, Japão, Finlândia, Escócia, Uruguai, Líbano e Suriname, levando para o mundo a complexidade e beleza das narrativas negras produzidas no Brasil. Essa ação evidencia o quanto o festival tem fortalecido sua projeção internacional, sem perder de vista a urgência das ações locais.

A mostra em números

  • 12 filmes exibidos em 6 sessões inéditas e 6 reprises;
  • 496 pessoas no total de público presencial;
  • 132 alunos da rede pública estadual impactados;
  • 8 realizadores convidados pelo festival;
  • 42% de taxa de ocupação das sessões, com destaque para as conversas após cada exibição.

Mercado NICHO: onde a arte encontra estratégia e conexão

Formação, negócios e visibilidade para profissionais negros

A programação de mercado do festival foi um dos grandes destaques da edição. Durante quatro dias, o IMS Paulista sediou oficinas, painéis, rodadas de negócios e o aguardado Pitching Show. O espaço foi cuidadosamente pensado para ser seguro, estratégico e acessível, permitindo que profissionais negros do audiovisual compartilhassem suas ideias, se conectassem com empresas e desenvolvessem suas narrativas com suporte técnico e consultivo de alto nível.

Nos dias 13 e 14, as atividades foram voltadas exclusivamente para profissionais previamente selecionados, incluindo oficinas sobre direitos autorais, treinamento de pitching com Fernanda Lomba e a Rodada de Negócios, que reuniu produtoras, distribuidoras, canais e players relevantes do mercado como Boutique Filmes, Audible, Wip Ventures, Gullane, Preta Portê, Descoloniza Filmes e outras.

Pitching Show: caminho real para o cinema negro internacional

No Pitching Show, quatro projetos documentais criados por produtoras negras receberam consultoria individual, treinamento e se apresentaram para uma banca especializada. A vencedora foi Carina Santos, com o projeto Entre Ruedas, uma coprodução Brasil–Cuba que agora representará o festival no Doc Toolbox, da Berlinale, um dos maiores mercados audiovisuais do mundo. Essa conquista não é só simbólica ela é transformadora. Garante visibilidade internacional, abre portas e posiciona o cinema negro brasileiro como potência criativa e intelectual.

Conversas públicas que atravessaram temas essenciais

Nos dias 15 e 16, os painéis abertos ao público foram espaço de debate profundo e democrático. As temáticas abordadas revelaram as múltiplas dimensões do fazer cinematográfico negro:

  • Laurence Lascary, produtora do novo filme de Raoul Peck, compartilhou sua trajetória e falou sobre o mercado francês.
  • Grace Passô e Julia Alves mostraram os bastidores do longa em desenvolvimento, discutindo processo criativo e estética.
  • O painel “Mais Mulheres na Produção” trouxe Juliana Lira, Thais Moresi e Rubian Melo para discutir desafios e estratégias para a produção de impacto.
  • O diálogo com a ANCINE, mediado por Fernanda Lomba, trouxe informações preciosas sobre políticas de acesso para realizadores negros.
  • O painel “A Criatividade do Arquivo”, com Lucas Rossi, explorou o filme Othelo, o Grande como caso exemplar de reinterpretação histórica.

Cada painel contou com interpretação em Libras, reafirmando o compromisso do festival com acessibilidade e inclusão.

Quando a música fecha o ciclo: show de Xenia França

O encerramento da edição ficou por conta da artista Xenia França, que entregou um show emocionante e potente. Realizado na Sala Adoniran Barbosa, o espetáculo atraiu um público diverso, engajado e afetado pelo que viveu durante os seis dias de festival. A música foi o ponto de encontro final: um convite à celebração, ao descanso, à continuidade.

Transformações que ficam: o impacto do NICHO 2024

Em uma semana de programação, o Festival NICHO Novembro 2024 conseguiu números e resultados que falam por si:

  • 1270 pessoas impactadas diretamente;
  • 17 contratações diretas e 72 indiretas para profissionais negros;
  • 15 negócios impulsionados por meio das rodadas e pitchings;
  • Ação em escolas públicas e universidades, reforçando o elo entre cultura e educação;
  • Projeção internacional através de premiação e exibição de filmes em 11 países.

Mais do que números, o festival deixou um legado de pertencimento, autoestima, articulação política e construção de redes. Mostrou que quando a curadoria é feita com afeto, quando o mercado abre portas reais e quando o público é convidado a se ver nas telas, o cinema vira instrumento de transformação social.

Rumo a 2025: o cinema negro segue mais forte do que nunca

O Festival NICHO Novembro é uma das ações do Instituto NICHO 54, fundado em 2019 para transformar o audiovisual brasileiro a partir do fortalecimento de narrativas negras em todas as suas etapas: da formação ao mercado, da criação à distribuição. Em sua sexta edição, o festival não apenas consolidou esse papel, ele ampliou suas ambições, desenhou pontes e entregou resultados.

Em 2025, o NICHO Novembro volta. E se essa edição nos ensinou algo, é que a alegria não só cria: ela move estruturas. E o cinema negro brasileiro está pronto para ocupar todos os espaços.

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