Formar lideranças para além da técnica: uma proposta que parte da escuta, da experiência e da estratégia
Dentro da estrutura do Instituto NICHO 54, o projeto NICHO EXECUTIVA ocupa um lugar especial. Criado pela produtora e gestora cultural Fernanda Lomba, o programa nasceu da constatação de que, mesmo com avanços significativos em relação à presença de pessoas negras no audiovisual brasileiro, os cargos de comando e de tomada de decisão ainda permanecem majoritariamente nas mãos de homens brancos. A ausência de mulheres negras em posições de liderança executiva, onde se decide o que é produzido, financiado, distribuído e internacionalizado, é um reflexo direto do racismo estrutural que opera silenciosamente nas engrenagens da indústria cultural.
O NICHO EXECUTIVA surge como uma resposta a esse cenário, mas vai além de ocupar lacunas. Ele foi pensado para formar, acelerar e consolidar carreiras de mulheres negras que já atuam no audiovisual, oferecendo a essas profissionais ferramentas práticas, acompanhamento técnico, suporte emocional e inserção direta no mercado. O programa tem como foco principal preparar essas mulheres para atuarem como líderes em posições executivas, seja em suas próprias produtoras, seja dentro de grandes empresas, festivais, organizações internacionais ou fundos de investimento.
Uma formação que olha para o todo: da linguagem ao mercado, do emocional ao institucional
O grande diferencial do NICHO EXECUTIVA está em sua abordagem multidimensional. O programa não trata suas participantes apenas como profissionais a serem treinadas, mas como intelectuais, criadoras, gestoras e lideranças em formação integral. Isso significa pensar não só no domínio técnico da produção executiva, mas também no desenvolvimento de habilidades de negociação, planejamento estratégico, relações internacionais, liderança criativa e autoconfiança institucional.
A formação é estruturada em sete módulos principais, que são oferecidos de forma presencial e online ao longo de doze meses. Os conteúdos abordam temas como elaboração de portfólio, montagem de carteira de projetos, estratégias de pitching, inteligência comercial, internacionalização, leis de incentivo, desenho de equipe e tomada de decisões criativas. Além disso, cada participante recebe aulas de inglês técnico com foco no vocabulário do mercado audiovisual, fundamentais para que possam apresentar seus projetos e dialogar com players estrangeiros em festivais e eventos internacionais.
O programa também oferece apoio psicoterapêutico às participantes, reconhecendo os impactos emocionais e subjetivos do racismo e da solidão institucional vivenciada por mulheres negras em ambientes de poder. A saúde mental é parte do projeto formativo, assim como o cuidado com as trocas horizontais, o fortalecimento da rede de apoio e a escuta entre as participantes.
Aprender e devolver: a contrapartida como parte do ciclo
Outro aspecto importante do NICHO EXECUTIVA é sua exigência de contrapartida comunitária. Cada participante do programa precisa, ao final da formação, desenhar e realizar uma ação de devolução para sua comunidade, seja em forma de aula, oficina, mentoria, publicação ou outro formato. Essa devolutiva não é vista como um “pagamento” pelo que foi recebido, mas como uma forma de manter o conhecimento em circulação, alimentar outras trajetórias e fortalecer a ideia de que crescimento individual precisa estar vinculado à transformação coletiva.
A lógica da pirâmide solitária é substituída por uma lógica de rede. O que se constrói no NICHO EXECUTIVA não é apenas carreira: é um campo comum de atuação que amplia as fronteiras do possível para todas as mulheres negras no audiovisual.
Do Brasil para o mundo: a internacionalização como eixo de ação
Um dos objetivos centrais do programa é garantir que as participantes estejam preparadas para atuar em contextos internacionais, apresentando seus projetos e suas ideias em mercados, festivais e rodadas globais. A presença negra nesses espaços ainda é extremamente reduzida, e isso se reflete nos tipos de narrativas que circulam, nos projetos que recebem financiamento e nos corpos que são autorizados a representar o país no exterior.
Por isso, o NICHO EXECUTIVA garante que cada edição do programa leve suas participantes a pelo menos três mercados audiovisuais internacionais. Nessas ocasiões, as produtoras apresentam seus portfólios, constroem relações com players de outros países, aprendem as regras do jogo global e, principalmente, passam a ocupar esses espaços com legitimidade, segurança e estratégia.
Esse processo de internacionalização é cuidadosamente mediado. As participantes recebem mentoria específica para cada evento, são acompanhadas por representantes do Instituto e contam com suporte emocional e prático durante toda a experiência. Não se trata apenas de abrir portas, mas de garantir que essas portas possam ser atravessadas com confiança, repertório e autonomia.
Impacto e reconhecimento: um programa que já virou referência internacional
O sucesso do NICHO EXECUTIVA foi imediato. Já em sua primeira edição, o programa chamou atenção da imprensa internacional e foi destaque em veículos como a revista Variety, uma das mais respeitadas no mundo do cinema e da televisão. Mas mais importante do que a visibilidade midiática foram os resultados concretos que a primeira turma alcançou: projetos desenvolvidos, parcerias firmadas, convites para consultorias, bolsas e cargos de liderança conquistados pelas participantes.
Com a segunda edição em andamento, o NICHO EXECUTIVA se consolida como uma das ações formativas mais consistentes e inovadoras do audiovisual brasileiro, ao mesmo tempo em que se projeta como referência internacional. O projeto prova que, com recursos certos, metodologia comprometida e escuta atenta, é possível romper barreiras históricas e construir novas narrativas de poder para mulheres negras no cinema.



